Página em Branco: Pela Janela

By Julia Gabrielle - 09:10



Vejo a chuva cair cada vez mais forte. Da janela do meu quarto fico vendo a vida passar, as pessoas que andam com um sorriso no rosto, outras com cara de desgosto. Imagino como são essas pessoas, cheias de problemas, confusões, alegrias, tristezas. Cada pessoa que passa imagino um nome para ela, uma vida, um sonho, um defeito, uma qualidade.

Me encanto por cada pessoa que crio. Lembro-me da "Anne", passava todos os dias na frente de meu gramado com flores já secas. Ela com os cabelos pretos e longos sempre soltos, alta, com sua roupa de ginástica. Levava consigo uma garrafinha de água cada dia de uma cor. Já a vi passando com uma amiga do lado, a qual nomeei "Suzanne", loira, usava sempre uma calça rosa e uma blusa extremamente cafona toda azul. Foram poucas as vezes que a vi junto de Anne. 

  Imaginei que Anne fosse dentista. Não sei o porquê, somente imaginei. Acreditava que ela morava no mesmo bairro que eu, numa linda casa, com seu marido. E passei a vê-la raramente. Gostaria de descer as escadarias de casa, correr para alcançá-la, falar com ela. Perguntar como vai o trabalho, como vai a vida, o motivo do seu sumiço.

Odeio acostumar-me com as pessoas que passam. É tudo um vai e volta sem fim. E passaram-se semanas e nunca mais a vi. Mas num dia ensolarado, a encontrei passando de calça jeans e uma blusa com a citação de meu livro favorito. Por um momento passou-me na cabeça, seria ela um bibliotecária?

No dia seguinte, - nublado - fui até a biblioteca central. Vazia, eu costumava a ir todos os dias, pegava os livros empilhava em uma mesa, sentava-me e folheava. Já era raro ver pessoas lá, muito menos jovens. Imagine agora, por maior e melhor que seja a tecnologia jamais substituirá um bom livro. Ao entrar percebo que mais uma vez estou enganada. A bibliotecária ainda continua sendo a senhorita Rose, com os cabelos bagunçados, folheia uma revista qualquer e finge que não estou ali. Saio e lembro-me que está quase na hora de "Anne" passar.

Por mais raro que seja suas idas, ainda acredito que a verei mais uma vez. Saio depressa, e esbarro em alguém. Não vejo muita coisa, só a pessoa murmurando coisas não muito boas baixinho. Começo a olhar os livros que caíram e são sobre turismo.  Recolho-os do chão, e quando vou entregar meu olhar fixa-se na pessoa. Anne. E antes que eu perceba já disse:

-Anne!
Ela olhou-me de maneira assustada, pegou rapidamente os livros da minha mão e disse:
-Meu nome é Megan.
-Eu lhe conheço.
-Desculpe, mas eu não te conheço. Se me permite, tenho que ir. Preciso pegar as minhas malas em casa, vou viajar.
-Você mora com seu marido certo?
-Não sou casada.
-Sua casa é muito bonita?
-Moro com meus pais.
-E como vai seu trabalho de dentista?
-Acho que houve um engano, sou professora de química.
-Por que não caminha mais?
-Eu...como sabe que caminho?
-E a Suzanne, por que não lhe acompanha mais nas caminhadas?
-O nome dela é Carol. Mas como sabe disso? Quer saber, não ligo. Tenho que ir.

E lá se foi ela. Com os livros na mão, andando apressada com seu All Star preto, com uma cara de confusa. Mal sabia eu, que seria nosso primeiro e último encontro.
Nunca mais a vi passando pelo gramado. Criei tantas ilusões, e me decepcionei. Viver trancafiada, passar a vida imaginando a dos outros não é viver.

Até hoje fico na esperança de vê-la mais uma vez. Mas não importa onde ela esteja, ainda há um céu que nos une.

*
(Julia Gabrielle)

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